26 de fev de 2012

O despertador já toca faz tempo!


Se tem uma coisa que o homem moderno desenvolveu foi a capacidade de planejar, categorizar, traçar metas e meios de alcançá-las. Até profissões foram construídas em cima disso. De fato, há dezenas de métodos por aí prometendo à pessoa chegar aonde quer, reprogramar a mente, controlar as emoções, alcançar o sucesso, etc. Com o mercado da "auto-ajuda" muitas pessoas, por não saber lidar com seus conflitos, optam por tomar suas decisões baseadas em receitas prontas, na tentativa de se adequar em algum conceito de normalidade. Afinal, sabemos como é angustiante lidar com as mudanças que, muitas vezes, o coração pede e não conseguimos realizar por comodismo e medo. E quando as realizamos nos achamos perdidos e culpados, presos ao passado e com medo do futuro, e muitas vezes até doentes. Daí nos perguntamos: e agora? 
     Não advogo em desfavor dos oráculos. Ora, um dos maiores magos da história, Aleister Crowley, que em sua percepção do Arcano VI - Os Amantes, parte de seu "Tarot de Thoth", afirmou: "O Oráculo dos Deuses é a Voz-da-Criança do Amor dentro da Vossa própria Alma (...)". Por isso, se algum oráculo lhe disser o que fazer desconfie. Afinal, todos os oráculos divinos nos levam ao confronto com nosso eu mais profundo, nos incentivando a buscar resposta para nossas questões através da coragem de seguir o coração. Também, não em desfavor dos profissionais que desenvolvem uma relação encorajadora com seus clientes/pacientes, incentivando-os a serem  independentes, e ter uma postura inovadora frente às suas doenças. Afinal o médico e o sábio não são seres superiores, tampouco sabem de tudo.
     Percebo, não só através de meus estudos acadêmicos, que sei serem humanísticos e racionais, dotados de questionamentos e incertezas, como também através dos meus próprios e meros olhos humanos o quanto a sociedade capitalista foi projetada de forma subnormal. Vivemos hoje em um mundo onde a desconexão é extrema. Não só da compreenssão do 'outro' (englobando todo conceito do que não é humano) como de nós mesmos. Ao ponto de destruirmos a vida em nome do progresso, de deixarmos que nossos valores sejam movidos pelo desejo do acúmulo de objetos, dos quais o tempo de uso é mínimo, e assim entulhamos cada vez mais o planeta e nossas vidas. Um progresso que nos deixa mais preguiçosos, mais dependentes, cegos, e subjugados. De fato não somos livres.
     Nos tornamos inseguros quanto aos nossos valores. Imagine como as pessoas lidavam com suas decisões nas sociedades antigas em comparação com a nossa sociedade. Naquela época não existia apólices de seguro, bancos para fazer render o dinheiro, sistema de saúde, Spa's, guias para o sucesso, tampouco TV e internet. Em outros tempos, não muito remotos, as pessoas não contavam com todas as opções de segurança e ajuda da qual hoje possuímos. Então o que está errado? Nossas conexões sociais e eco-lógicas têm sido projetadas no comodismo, tornando-nos cada vez mais dependentes de um sistema inecológico, sujo e desconectado da natureza. 
     A palavra natural tem sido usada de forma ilógica pelo sistema. A mesma tem origem etimológica para denotar algo de ordem orgânica, ou seja, algo parte de uma entidade viva, portanto lógica. Ao contrário disso, boa parte da sociedade age como se a fome fosse algo natural, as guerras, a corrupção, a súper valorização do eu, a falta de educação, o não aproveitamento de energias renováveis, o consumismo, etc; como se tudo isso fosse um aspecto natural e lógico do ser humano. Vi uma frase outro dia que dizia: "O mundo se comove, mas ninguém se move." Cada vez mais nos rendemos ao medo e ao comodismo; ao medo de mudar, ao medo de decidirmos algo sem consultar a opinião de outrem, ao medo de tomar partido, ao medo de nos conhecer realmente, ao medo de lutar. Na sociedade,  agora posmoderna, estamos cada vez mais entretidos, aliciados, encorajados a nos mantermos ocupados e a deixar que outros decidam por nós. E assim, a consciência encadeia-se cada vez mais. O despertador já toca faz tempo! Abrir mão de nossos questionamentos e senso crítico é um grande erro. Aceitar, apaticamente, o que nos é imposto sob a desculpa de legitimidade é suicídio mental. Não mudar por comodismo é preguiça de caráter.

Texto publicado no jornal Brazilian News, o jornal da comunidade brasileira em Londres, nº534 edição 9 a 15 de Agosto de 2012, pág.18. 

2 comentários:

Anônimo disse...

Giselle, que texto incrivel! Posso publicar na minha pagina? Ju

Paulo Urban disse...

Boa reflexão para começarmos bem nossa semana! Valeu, Guselle! Beijo.