31 de mai de 2012

Percepção em cápsula


É através da percepção que assimilamos a nós mesmos, e o mundo a nossa volta. Jean Jacques Rousseau ao dizer que "o primeiro raciocínio do homem é de natureza sensitiva; os nossos primeiros mestres de filosofia são os nossos pés, as nossas mãos, os nossos olhos" sabia que a percepção era a porta para o conhecimento. Acontece que estar entretido se tornou característica do homem civilizado. Quantas vezes conversamos com alguém e não ouvimos, olhamos e não vemos, caminhamos e não percebemos o que há no caminho; esses despercebidos detalhes podem vir à ser sábios insights para muitas de nossas questões. Não fosse pela percepção não poderíamos atribuir significado à experiência, isto é, ao fenômeno vivido. Com efeito, o comportamento do ser humano é grandemente influenciado pela interpretação que faz daquilo que vive. E apesar da semelhança genética da qual dividimos a percepção do mundo é diferente para cada um; cada pessoa percebe um objeto ou uma situação de acordo com os aspectos que tem importância para si. Assim, mediante nossa capacidade de perceber a nós mesmos, e o meio em que vivemos, padrões de comportamento são reafirmados ou deixados de lado.

Considerando o ser humano contemporâneo mais parece que a percepção de si, e do meio, ainda é por demais restrita. Acabamos por nos ater a uma mentalidade que busca o lógico e o seguro. Nos tornamos extremamente inteligentes, analíticos e criativos; expressamos aquilo que pensamos como nunca. Entretanto, uma guerra desenfreada por “sentido” se instalara, e engana-se àquele que pensa que essa guerra acontece apenas nas mentres dos fundamentalistas. Nunca estivemos tão "evoluídos" e, no entanto, com a psique tão afetada pela falta de percepção; já mostram as estatísticas sobre o alto número de dependentes de remédios contra depressão - o mal da falta de sentido. Por aprendermos do individualismo exacerbado, slogan da revolução do pensamento liberalista, nos tornamos entorpecidos pela própria imagem, como Narciso. Ou teríamos nós “despercebido” as palavras de Karl Marx onde o mesmo adverte que a condição para a emancipação do ser humano, de acordo com o capitalismo, custaria nossa percepção? Indiferente do slogan político da qual nossa sociedade está contida uma coisa é certa: não precisamos de um mundo novo, mas sim de uma nova visão do mundo. 

É preciso olhos profundos, olhos que desaguam na alma, e verás o que ninguém vê.

Texto publicado na edição 530, julho de 2012 no Jornal http://braziliannews.uk.com/

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